Economia

O outro lado da Esplanada das Secretarias

Texto: Thom Aragutti

Queria passar adiante alguns comentários que rondam a empresa onde eu trabalho. Não sei se vocês sabem, mas sou engenheiro formado pela Universidade Veiga e Almeida e trabalho na Refinaria Nacional de Sal, a Sal Cisne. Muitos cabo-frienses acham que a Refinaria não funciona, ou que faliu como a Perynas e Alcalis. Para a alegria dos muitos funcionários, posso dizer que é a líder no mercado de sal beneficiado do Brasil.

Na Sal Cisne encontramos funcionários com mais de 30 anos de casa. Assim como profissionais de vários estados do Brasil, que estão lá por meritocracia. Desde o final da década de 1990, após sobreviver a uma grave crise, sua nova gestão se modernizou e hoje temos uma planta com capacidade de até 21 toneladas de sal por hora. Contando com todos os setores, a Sal Cisne tem mais de 500 funcionários, ajudando a alimentar centenas famílias de Cabo Frio, São Pedro, Araruama, Búzios, Iguaba e Arraial do Cabo. É a única refinaria de sal no Brasil que produz sal para hemodiálise e para diversos segmentos da indústria farmacêutica, além de distribuir para todos os estados da Região Sudeste, Centro-Oeste, Sul e para o exterior. É a única empresa salineira de grande porte fora dos Estados do nordeste do Brasil.

É uma pena, mas quase todos os cabo-frienses que me encontram com uniforme da Refinaria perguntam se a empresa não faliu. Isso porque, infelizmente, a imagem das salinas sem os clássicos montes brancos de sal, tão bem retratados pelas fotografias de Wolney, não existem ali. Não quer dizer que essas salinas estejam abandonadas, ao contrário! A visão de que competitividade da produção de sal está atrelada ao clima, levou a empresa (no início da década de 1950!!) a focar apenas na produção de salmoura nas salinas – salmoura da qual o sal é retirado através de um processo industrial de alta tecnologia e único no país. Essa visão empresarial tornou viável a sobrevivência da empresa, quando toda a atividade salineira da Região dos Lagos fluminense definhou até praticamente acabar.

Em meados de 2014, a Prefeitura de Cabo Frio desapropriou uma área das salinas pertencentes à Sal Cisne, equivalente a cerca de 10% de sua área de produção. Mesmo com disponibilidade de áreas de salinas desativadas de empresas já falidas como Perynas e Álcalis ao redor da nossa cidade, a Prefeitura de Cabo Frio desapropriou terras da única empresa de grande porte que temos. De onde virá o sal para compensar a produção própria? De fora do Rio de Janeiro, ou até mesmo do Brasil. Ou seja: transferência de renda de nossa cidade, de nosso Estado, para longe daqui…

Isso está provocando uma grande preocupação aos nossos funcionários. Todos tem medo da possibilidade de falência, ou que a empresa se mude para o nordeste. E ao contrário da crise dos anos 90, agora não resta outra indústria salineira na Região dos Lagos. Na Refinaria encontramos os profissionais que se profissionalizaram na Perynas e Alcalis (hoje fechadas), especialistas da indústria do sal que encontrariam dificuldade de recolocação em outro setor. E o mais preocupante, não temos mais industrias em Cabo Frio. Para onde irão os nossos profissionais se isso acontecer?

Alguém mais desavisado pode alegar que a desapropriação é natural, uma vez que a Sal Cisne investe pouco nos salineiros locais, preferindo comprar Sal importado para complementar a concentração de sua salmoura. Proponho que nós saiamos da suposição e que entremos em reflexão: o produto regional tem a qualidade necessária para atender padrões de qualidade exigidos para se atender uma empresa de alimentos de grande porte? Mais: os produtores regionais têm suporte, apoio e incentivo dos gestores públicos para que possam evoluir e ter condições de competir com seus concorrentes externos?

Eu e mais dois amigos trainees conseguimos um emprego na empresa, ao contrário de quase todos estudantes que se formam em engenharia nas nossas universidades particulares e permanecem desempregados. Na Região dos Lagos, o único lugar que poderíamos encontrar para trabalhar na nossa área de formação.

Em época de crise de Royalties, quando a diversidade econômica pode diminuir o impacto da diminuição de receitas da Prefeitura de Cabo Frio, não seria o caso de se desistir da desapropriação de uma área produtiva que afeta seriamente a operação da única grande indústria da cidade e do projeto da Esplanada das Secretarias? Como acreditar como sérias as medidas de corte de custos anunciadas pela gestão municipal, se ela insistir num projeto que custará à prefeitura dezenas de milhões de reais?

Além da importância econômica, a Refinaria Nacional de Sal é personagem da história e cultura de Cabo Frio! Única indústria remanescente de um movimento econômico que se iniciou ainda na época do Império e foi durante anos o motor da economia regional, a Refinaria que deveria ser motivo de orgulho dos cabo-frienses volta a sofrer ameaças de dias ruins pela frente.

Não falo em nome da empresa, mas em nome do meu emprego. E de todos os outros funcionários que estão indignados com a notícia. Queremos espalhar informação para que todos saibam o que Cabo Frio pode perder com a desapropriação dessas salinas.

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